Missionário do Planalto: Padre Natal Pigato e a religiosidade popular

Nos 100 anos do falecimento de um dos principais personagens da história de Santa Felicidade, recordamos memórias de um sacerdote zeloso e missionário.
Érica Diniz e Pedro H. Colatusso – PASCOM
Reportagem publicada na Revista Paroquial 'Vivendo em Santa Felicidade' - Novembro, 2019
Publicada no site por ocasião do centenário de falecimento do Pe. Natal Pigato - Setembro, 2026
Em meio às imagens de santos e de Nossa Senhora, Diva Stival conserva uma peça que ganhou de presente da mãe, há muitos anos. O velho busto, representando um sacerdote de batina e barrete, até parece contrastar com as demais imagens, mas não com a profunda fé que Diva conserva em Natal Pigato, o missionário italiano que, pelo seu trabalho com os imigrantes, ficou conhecido como um dos protagonistas no cultivo da fé das colônias italianas instaladas no planalto curitibano, no final do século XIX.
“Minha mãe era uma devota dele. Devoção que já vinha dos pais dela. Quando nós estávamos doentes, ela sempre rezava pedindo a intercessão do padre Natal. Tanto que, quando foi feito o pedido na Paróquia de quantas famílias tinham interesse em adquirir o busto, ela logo foi dar o nome. Quando ela faleceu, eu fiquei com a imagem. Acredito que um dia ele ainda vai ser santo”, conta Diva Stival.

Natural de Mason Vicentino, no Vêneto Italiano, Natal Pigato nasceu em 24 de dezembro de 1861, exatos trinta anos antes da inauguração da Igreja Matriz de Santa Felicidade. De família de lavradores, manifestou o desejo de ser padre logo nos primeiros anos de estudo. No entanto, no ambiente familiar, sua vocação era mal vista e combatida frequentemente, de modo que, cedendo às pressões, casou-se com Felicidade Mottin, e teve uma filha. Mas, passados alguns meses, a criança veio a falecer e, tempos depois, Natal perdeu também a esposa, ficando viúvo aos 26 anos.
Nos arquivos de nossa Paróquia, o missionário scalabriniano Pe. Ângelo Cerântola, que estudou a vida de Padre Natal, escreve que “a morte da esposa constituiu-se em mais uma prova de que Deus o queria para a Sua messe”.
Após ter iniciado o processo formativo sacerdotal, Natal Pigato vestiu o hábito religioso em 1892, na recém-fundada Congregação dos Missionários de São Carlos, e foi ordenado padre em 1895, por Dom João Batista Scalabrini.
No ano seguinte, Pigato embarcou para a sua grande missão: a evangelização nas colônias italianas do Paraná, no Brasil.
Após permanecer um ano em São Paulo, chegou à Santa Felicidade em 1897. Segundo o Padre Cerântola, a partir desta época, a colônia alcançou seu maior progresso espiritual e material, graças ao trabalho conjunto dos padres Francisco Brescianini, José Martini e Natal Pigato.
Pe. Pigato permaneceu em Santa Felicidade por 19 anos, até 1916.
Neste período, recebeu a incumbência do bispo de Curitiba de visitar comunidades distantes. Tendo como sede Santa Felicidade, deslocava-se de colônia em colônia, até os lugares mais distantes do interior do Paraná e de Santa Catarina. “Passava semanas, até meses fora. Passava de casa em casa e estava sempre em contato com o povo. Sabia escutar os outros com atenção e sempre lhes dava os melhores conselhos; por isso andava sempre rodeado de pessoas que o procuravam”, escreve Cerântola.
Além disso, os relatos contam que Pigato passava muito cedo pelas ruas enquanto “viajava e cantarolando, convidava o povo para que se levantasse e fosse à Igreja”. Exigia muita participação do povo nos ritos, sobretudo que cantasse bem os cantos litúrgicos.
Na Santa Felicidade dos dias de hoje, as lembranças do padre permanecem fortes e são recordadas cotidianamente. No alto da torre, os sinos foram abençoados por ele para que espantassem temporais e até hoje, quando uma tempestade se forma, os sinos tocam e os paroquianos mais antigos rezam pedindo a intercessão do Padre Natal, para que nada seja destruído.
Maria Slompo é uma delas. Com a foto do padre Natal guardada, recorda das lembranças de família. “Minha nonna fazia comida para ele. Ele gostava de flor de abóbora à milanesa”, recorda. Entre tantas histórias passadas pelas gerações, conta que um dia um colono perdeu o arreio do cavalo e contou ao padre, preocupado por ter ficado sem o instrumento de trabalho. “E o Padre Natal disse para ele ir buscar em tal lugar, que estava pendurado em uma laranjeira. E estava lá”, conta.
Aos 96 anos, Carmela Stival também é testemunha da fé ao padre. “Eu era bebê, tinha poucos meses, e contraí uma doença da época. Então minha mãe me levou para a cidade e o médico disse que poderia preparar o caixão, pois não havia nada a ser feito. Na volta, ela não teve dúvidas. Parou na Igreja e pediu uma bênção ao padre Natal. Então ele me abençoou e disse à minha mãe que não precisava se preocupar, pois eu ainda iria viver muito. Prova disso é que estou aqui até hoje”, conta.
O padre era também conhecido como um grande pregador. Atraía multidões para suas Missas, especialmente de jovens, que faziam fila para confessar-se com ele. Nos relatos colhidos pelo Pe. Cerântola nos 50 anos do falecimento de Pigato, constam muitos testemunhos de profecias, afastamento de tempestades, curas e bênçãos. “Ele foi um homem maravilhoso, sobretudo bom pregador; fez somente o bem. Pe. Natal tinha um grande poder contra doenças e desgraças que afetavam a população das colônias”, diz um dos relatos.
Outros falam do afastamento de tempestades. “Testemunhas oculares contam que, em Santa Felicidade, formou-se uma temerosa tempestade. Pe. Natal benzeu o tempo, tocou os sinos e imediatamente a tempestade se desfez.”
“Em Rondinha, na época da colheita da uva, uma grande tempestade se formou, e os colonos foram até a casa paroquial para que o Pe. Natal abençoasse o tempo, a fim de que não perdessem a safra. Então ele jogou água benta nos arredores da Igreja, e o granizo atingiu somente o cemitério, chegando a ficar alto do chão”.
Além dos relatos do povo, o próprio Pe. Natal contava alguns episódios em cartas, como em um exemplar enviado aos superiores de Roma: “Um dia a colônia foi invadida pelos gafanhotos. Esta é uma praga terrível e devastadora. Pedi ajuda Divina e pus-me a benzer e a rezar durante horas a fio. Aconteceu um verdadeiro milagre. Vi os gafanhotos levantarem voo e desaparecerem no espaço. Eu estava todo molhado de suor, pela grande fadiga.”
Além de cooperador em Santa Felicidade, Pigato também foi vigário da Paróquia de Rondinha, onde permaneceu até falecer. No período, além de estimular a construção de Igrejas nas Colônias, ficou conhecido como o padre da humildade e da caridade. “A casa paroquial não dispunha do mínimo conforto. Sua cama constituía-se num saco cheio de palha de milho. Dava esmola do pouco que possuía para quem batia à porta da sua casa. Doou sua batina a uma viúva para que a mesma fizesse dela roupas para suas crianças. Atendia, prontamente, os doentes a qualquer hora do dia ou da noite”, escreve o Pe. Cerântola nos arquivos paroquiais.
O último batizado de Pigato ocorreu na Capela da Colônia Rebouças, em Campo Largo. Tratava-se de um descendente de imigrantes italianos, de nome Pedro Fedalto; mais tarde padre e arcebispo de Curitiba. Em conversa com a Pastoral da Comunicação, durante as entrevistas para os 140 anos de Santa Felicidade, em 2018, o hoje arcebispo emérito, assim se refere a Padre Natal: “Ele me batizou no último domingo de agosto, quando se celebrava a Festa de Nossa Senhora de Monte Bérico, e no dia 11 de setembro ele faleceu. Sempre tive muita confiança e muita devoção ao padre Natal Pigato.”
Sobre o fato, Dom Pedro também falou em gravação para a canonização de Scalabrini, em 2022:
Dias depois do batizado, em um enterro na Capela de Ferraria, disse, predizendo a sua morte: “Antônio, hoje é você, amanhã serei eu.” Regressando à Rondinha, disse a algumas pessoas encontradas pela estrada: “Agora o cavalo me leva para lá, amanhã vocês me vão trazer de volta.”
De fato, dias depois, sentindo fortes dores intestinais, acamou-se e veio a falecer pouco antes das 19 horas do dia 11 de setembro de 1926. A notícia espalhou-se rapidamente, e consternou a população de todas as colônias.
Sobre as últimas homenagens, Pe. Ângelo Cerântola relata: “Após ter sido velado pelo povo da Paróquia de Rondinha e das regiões vizinhas, seus restos mortais foram conduzidos por quatro cavalos brancos, seguindo pela estrada velha de Curitiba, com acompanhamento de milhares de pessoas. Dada a distância que separa Rondinha de Santa Felicidade, onde seria sepultado, seu corpo foi ainda velado durante uma noite em Campo Comprido, metade do destino final. No dia seguinte, o grande cortejo seguiu para Santa Felicidade. Oficiou o enterro, o Bispo de Curitiba.”
Sepultado na Capela do Cemitério de Santa Felicidade, são muitas as pessoas que até lá se dirigem para fazer suas orações e pedir graças por sua intercessão.

Linha do tempo
1861: Nasce, em Mason Vicentino (Itália)
1885: Casa-se com Felicidade Mottin
1887: A esposa falece e Natal decide seguir o caminho que Deus indicava: o sacerdócio
1895: É ordenado Padre, por Dom João Batista Scalabrini
1897: Inicia a missão junto aos colonos italianos no Paraná, fixando residência em Santa Felicidade
1926: Morre, na Casa Canônica de Rondinha. É sepultado no Cemitério de Santa Felicidade






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